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quinta-feira, 9 de junho de 2011

O dia em que conheci Michael Jordan

Uma vez, no ano de 98 um menino apaixonado por futebol ligou a televisão. E, sem ter o que ver, sem uma bola a ser chutada de lá para cá e cansado de jogar videogame, dedicou poucos minutos de sua noite para ver a bola voar. Como todo bom boleiro e fã de Romário, não tinha intimidade com aqueles monstros com o dobro da altura do pequeno craque, à época, com a mania de meter gols, vários, para o time do menino.

Tão pequena quanto o ídolo, ficava a quadra na qual a bola ia de mão em mão. Deitado na cama, de frente para a televisão, o menino via dois números sem mesmo entender o que se passava: dois e três. Invertidos, dão o trinta e dois, que iam nas costas de um grandalhão absurdamente maior do que qualquer homem que o menino já vira. Anos mais tarde, já com mais idade, informações e gosto por basquete, soube que aquele era Karl Malone. O garrafão, para o ala-pivô do Utah Jazz, era home sweet home definitivamente. Ao lado do trinta e dois estava sempre um talzinho - pequeno que era perto dos outros: um americano chamado João, mais conhecido como Stockton. A bola ia dele para os outros voando, rápida e certeira. Armador, John pensava o jogo. Mas isso tudo o menino só soube mais tarde, anos mais tarde.

Do outro lado da quadra, os números dois e três não se invertiam. Ficavam em ordem e, unidos, formavam o vinte e três. Mas o menino, ainda com doze anos, não sabia claramente quem era o camisa vinte e três do Chicago Bulls. O que ele percebeu, já naquela noite, é que humano aquele sujeito não era. Negro de cem quilos, com um metro e noventa e oito centímetros de altura, vestido em vermelho e, às costas e em preto, os números dois e três. Espantava.

O relógio, com dois outros numerozinhos, o um e o zero, ditava a dramaticidade do fim do jogo. Era a final, entre Utah Jazz e Chicago Bulls, na temporada da NBA de 1998, no Delta Center, em Utah. Feito os dribles de Garrincha, que sempre corria para a direita, o último lance daquela partida terminaria com a bola indo das mãos do vinte e três do time vermelho para a cesta. Todos sabiam, os outros nove jogadores em quadra, os árbitros, a torcida sabia, que vibrava contra o monstro dos números irresistíveis: dois e três. Menos ele, o menino, que via tudo meio descrente, sem o interesse que a bola nos pés causa. Deitado, entediado.

Aí veio o momento. Bryon Russell, do Jazz, colou no E.T. de um metro e noventa e oito. Marcação homem-a-homem. "Defense, defense, defense"- gritava o Delta Center. A bola voou para as mãos do vinte e três de vermelho. Ele gingou feito Garrincha. Russell perdeu o equilíbrio, como um João, não o John, seu companheiro, mas como aqueles vários Joãos marcadores da bola nos pés. O vinte e três então arremessou, chutou, como um centroavante. O menino arregalou levemente os olhos ainda pensando: "O Romário podia fazer uns três no fim de semana, ia ser legal." Nessa viagem entre a bola que quica e a que rola, o Delta Center viu história. O menino também.

Foi assim, pensando em Romário, que conheci um marciano chamado Michael Jordan.

PS. Hoje à noite - outros tempos, com a camisa vinte e três do Bulls já devidamente aposentada -, jogam Miami Heat e Dallas Mavericks. Será o quinto jogo da série, que está empatada em dois a dois. Mais uma chance para nascer história. Tomara.

10 comentários:

  1. Gabriel, só tenho elogios. Eis que surge um cronista esportivo. Não um garoto, escrevendo por prazer. Um adulto. Com total ciência das palavras escolhidas. Parabéns.

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  2. Sábia decisão de mudar o canal descompromissadamente...quanto mais fortuito o acontecimento, mais prazeroso se torna acreditar no acaso...excelente texto e as pessoas citadas sao inquestionavelmente merecedoras da homenagem...

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  3. realmente ta habilidoso com as palavras!! parabéns!! teu texto tem ritmo e prende a atenção!! cedo ou tarde suas cronicas vao parar em algum jornal ou site de relevante importancia, acredite em vc amigo!! visitarei sempre que puder!!

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  4. Ta nos favoritos ja!

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  5. Sensacional, cara!

    Parabéns e continua nessa que vai longe!

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  6. No começo desconfiei que NBA já tivesse saído de moda aqui no Brasil. Mas a repercussão dos textos de basquete mostra que eu estava redondamente enganado.

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  7. As palavras do Tomás Ribeiro já diz tudo...
    Parabéns pelo texto Gabriel!

    Um breve comentário. Esses caras não jogam basquete, é outro esporte. rs.

    Abraço.

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  8. Tens futuro, garotão!
    Parabéns!
    Abraços,
    Aquiles

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  9. Cara, me identifiquei muito com o texto. Lembro dessa cesta do Jordan. Meu pai torcia sempre contra o “mito”, pois também não acreditava que ele fosse humano, também achava aquilo uma covardia. Malone era gigante e parecia que a hegemonia dos Bulls terminaria ali. A minha vibração irritou muito o meu velho, que saiu da sala da mesma forma que saía quando o Corinthians levava um gol. Por isso aquela cesta, no último instante, foi épica.

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